Não teve graça

Poesia feita em homenagem à trajetória entre um trabalhador e um idoso em situação de rua:

 

Não teve graça

Não tem graça.

Não tem graça o idoso na rua.

Não tem graça a piada nua.

Não ri quando você maltratou o sujeito.

Ou que dele teve medo ou receio.

Seu Valdomiro negro, setenta e três

Se na rua exibia suas agruras

Nós das equipes de rua tínhamos o prazer da sua alegria.

Até que um dia sem graça, seu Valdomiro com o corpo desaba.

Não teve graça.

No albergue só covardia.

Na hora do médico a conduta moral, sem banho nem a pau.

No meio de tanta nojeira, Valdomiro teve certeza.

Com os olhos em lágrimas e em noite de lua cheia, suas palavras foram verdadeiras.

Alvaro, hoje vi em você o que minha família nunca fez. Em você, pai, irmão, esposa e filho eu encontrei. 

Mas não teve graça.

Na instituição total a piada se fez fatal.

O pato preto da vez.

Não teve graça.

EU não ri, ele não riu, nós não rimos.

Apenas vimos o retorno do idoso ao seu lugar deposto.

Um ou dois meses, tanto faz.

Seu Valdomiro não aguentara muito.

Ele jaz.

Não! Não teve graça.  

 

Álvaro Belloni