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  • A extensão universitária no processo de construção da identidade profissional

    Anderson rosa

    Todas as explicações possíveis sobre as escolhas e rumos da minha vida profissional perpassam pelas experiências da extensão universitária. Nas próximas linhas, discorrerei sobre a importância e repercussões de algumas dessas experiências e espaços de socialização no meu processo de construção da identidade profissional.

    Ainda adolescente, e com dúvidas em cursar ou não a graduação em enfermagem, eu assistia às apresentações sobre a Unifesp em um auditório lotado de estudantes que acabavam de ingressar nesta universidade. A motivação em experimentar a enfermagem veio do encantamento com os projetos de extensão que eram apresentados nesse auditório, e que me desvelou possibilidades de atuação e de implicação na vida de outras pessoas que eu desconhecia – fui fisgado. Logo nas semanas iniciais de aula, teve início um processo de investigação e experimentação junto aos projetos de extensão da Unifesp. Das primeiras impressões ficou a inquietação pelos processos de seleção para participar deles, pela burocracia, relações verticais e disputas por poder entre os membros, e pela necessidade de um período probatório para que se pudesse conhecer e interagir com o campo.

    Em 2001, ainda no primeiro ano de graduação, juntei-me a um grupo de estudantes, em sua maioria da enfermagem e que compartilhava das inquietações descritas, e com o apoio da professora Ana Brêtas criamos o Projeto de Extensão Saber Cuidar. A ideia inicial foi desenvolver nos finais de semana, atividades de saúde, esporte e cidadania em parceria com a equipe de Estratégia da Saúde da Família (ESF) na área de abrangência da Chácara Bela Vista – região vinculada àCoordenadoria de Saúde de Vila Maria da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. Os anos de atuação nesse projeto trouxeram experiências marcantes e, a todo o momento, as habilidades e a criatividade dos participantes eram desafiadas – estudantes, profissionais e comunidade. Foram atividades de educação com grandes grupos de crianças; envolvimento com os líderes comunitários locais para pensar as possíveis contribuições do Projeto para a população; mobilização da comunidade para atuar sobre os problemas do lixo e saneamento básico da região; atividades com adolescentes para identificar talentos e alternativas pessoais e coletivas para inseri-los no mercado de trabalho, pensar em carreiras e afastá-los do assédio da criminalidade; atividades de orientação sexual e prevenção de doenças para estudantes de uma instituição religiosa de ensino. Construímos muitas relações, vivenciamos conquistas e perdas junto a essa comunidade. Recordações que após alguns anos ainda me impregnam de emoção e sentido. Esse projeto se encontra em plena atividade nos dias de hoje, trabalhando na região do Jardim São Savério e Parque Bristol.

    Paralelo às ações iniciais do Saber Cuidar participei do Projeto Universidade Solidária. Integrei um grupo de dez estudantes da Unifesp que foi ao município de Teolândia, na Bahia. Dentre as principais atividades, realizamos capacitações aos agentes comunitários de saúde, educação popular e a criação de duas brinquedotecas, após campanha de doação de brinquedos realizada previamente em São Paulo. Essas vivências trouxeram a possibilidade de pensar problemas de saúde típicos de outra região do país, interagir com as dificuldades e desafios de promover saúde e prevenir doenças em um pequeno município carente e com poucos recursos institucionais. Foi um choque de realidade e cenário de muitas aprendizagens. Das crianças que participaram do Projeto recebi o apelido de Gigante, e tenho o prazer de ainda hoje manter contato com algumas dessas pessoas. Hoje, homens e mulheres com famílias constituídas, mas que ainda me chamam de Gigante. Na época dessa experiência, nasceu a primeira pesquisa de ESF – novamente fisgado. Anos depois, enquanto profissional, atuei como enfermeiro da ESF e atualmente trabalho como gerente de uma Unidade Básica de Saúde (UBS).

    No segundo ano de graduação, por intermédio do Projeto de Extensão Saúde do Povo em Situação de Rua, vivi a experiência de conhecer usuários e trabalhadores de um Centro Comunitário que atendia pessoas em situações de rua. Tivemos a oportunidade de pensar a saúde sob a ótica dessa população, refletir sobre o processo de inclusão e exclusão social, desenvolver outros repertórios de ações educativas e assistenciais, rever criticamente nosso papel social enquanto estudante de uma Universidade Pública. Através da segunda bolsa de iniciação científica me aprofundei no estudo sobre condições e sentidos de vida e de saúde para as pessoas em situação de rua. Fisgado pela terceira vez; somam-se, desde essa experiência, 12 anos de estudo nessa área, incluindo meu mestrado e doutorado.

    Enquanto profissional, a afetação e sentido das experiências extensionistas se mantiveram ativas e ampliaram meu repertório de intervenção em atividades assistenciais, educativas e de gestão. Para ilustrar alguns exemplos, em uma de minhas primeiras experiências profissionais, supervisionava o estágio de estudantes do último semestre do curso de enfermagem. A atividade estava prevista para acontecer em uma UBS que passava por reforma no prédio e mudanças de profissionais, o que inviabilizava parte da atuação dos estudantes. Propus à universidade e aos estudantes desenvolver esse estágio em um Centro de Acolhida para pessoas em situação de rua e apesar do estranhamento inicial a experiência foi produtiva para todos que tiveram envolvidos nesta interação. Hoje, atuando como gerente de uma UBS, e transcorrida mais de uma década das principais experiências na extensão, continuo valendo-me dos repertórios de atuação apreendidos. Pensando e atuando com as lideranças comunitárias nos determinantes sociais de saúde da região, no fortalecimento do Conselho Gestor local, contribuindo com profissionais em estratégias de cuidado em situações complexas que fogem do habitual, negociando com lideranças políticas e institucionais, valorizando os interesses e necessidades da população eprofissionais.

    Não quero aqui minorar a importância dos conhecimentos que compõem às disciplinas da área da enfermagem, mas pensar em formas mais eficientes para o processo de ensino-aprendizagem que inclui a valorização de espaços de convívio social entre estudantes e diferentes populações. Espaços onde conteúdos possam ser testados e aprimorados, onde se vive a saúde em sua perspectiva multidimensional e se pode interagir com seus determinantes sociais; onde a universidade pode contribuir com processos de desenvolvimento local; onde possamos aprender e ensinar sob a lógica do trabalho interprofissional e interdisciplinar. Faz-se necessário ampliar os limites da formação profissional para além do desenvolvimento de competências técnico-operacionais, incorporando às experiências outros aspectos da vida social e da vida organizativa; interferindo no processo de construção de identidades pessoais e profissionais, ratificadas pela inserção dos estudantes nos principais problemas e desafios da sociedade.

    Não consigo imaginar que profissional, ou que rumo minha carreira teria tomado, caso eu não tivesse tido a oportunidade de viver as experiências proporcionadas pela extensão universitária. Foi com auxílio delas que conferi sentido em ser enfermeiro, pesquisador, docente e gestor na área da saúde coletiva.

    Anderson da Silva Rosa

     

    Rosa, Anderson da Silva. A extensão universitária no processo de construção da identidade profissional. In: Anna Carolina Martins Silva; Ana Cristina Passarella Brêtas; Carmen Lúcia Albuquerque de Santana. (Org.). COM -UNIDADE: experiências extensionistas. 1ed.São Paulo: Páginas & Letras Editora e Gráfica, 2014, v. , p. 90-93.

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